terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Uma conversa fez-me lembrar de outras noites. Podia lembrar-me de lágrimas, desesperança, vazio, mas não. A memória acertou como uma flecha no que o verbo querer já conseguiu fazer de mim.
Lembrou-me o desejo sentido como uma dor física. A carne rosada, inchada, entre as pernas por palavras lidas, ouvidas, imagens vistas, trocadas, lembranças, fantasias. Horas volvidas com números azuis no despertador e o rolar incessante para um lado e para o outro da cama. Telefonemas tardios. Vozes roucas e quase em surdina. A mão despudorada em sentido descendente. Promessas, impulsos confessados e partilhados. A lingerie escabrosa, escolhida a dedo antes de encontros secretos e fortuitos, para provocar o mais possível, nem que desaparecesse do corpo, dez segundos depois de aparecer. A sensação de que se poderia viver sempre apenas daquela insanidade, e no segundo a seguir sentir que o corpo também tem um limite para os seus delírios. 
Jamais voltaria aquele "lugar". Mas não apago por nada a adrenalina que me deixou e que ainda me faz pulsar com ardor sempre que junto no pensamento, imagens deste ou daquele momento. Dou-me o direito de reviver e de ter a certeza que se alguma vez me vi e me mostrei no meu estado mais puro, foi ali. Só o verbo querer me nos importava.