quarta-feira, 24 de maio de 2017


Dorida. Encharcada. Saciada. 
Imaginei-o dentro de mim no minuto a seguir a olhar para ele. 
Criei as minhas expectativas. 
Dedicado, esforçado e sobretudo, incansável. 
Lembro-me dos saltos dos meus sapatos a bater no chão enquanto caminhava para ele e da música que nos servia de fundo, a mesma que ainda me toca dentro da cabeça com a mesma violência com que as memórias desse dia me apertam as coxas.
Acho que me embriaguei algures no meu próprio desespero, por entre corpos suados e gritos sem censura. Apetece-me voltar lá. Ser outra vez aquela mulher a quem a carne só exige que se entregue.
(...)
Dormimos a tarde inteira. Abri os olhos às 17 como se fossem 8 da manhã. Deixei-o e enfiei-me num duche frio. Pensei em nada durante uns bons minutos com a água a correr e saí de cabelo a pingar. Ainda a dormir, toquei-o devagar. Cedi a um rápido volte face e vi o corpo dele no espelho a tomar conta do meu e a procurar o seu espaço dentro de mim, apagando-me todos os pensamentos.
(...)
As horas escorreram-nos da pele numa cama quente e desfeita.

sábado, 6 de maio de 2017


Calo a boca à ansiedade destes dias, com o corpo dele dentro do meu. Coxas enganchadas e nós ainda com alguma roupa, porque o desejo correu mais depressa do que o tempo. 
Insensatez.
Por momentos, fecho os olhos e gozo as sensações. Todas ao mesmo tempo, na carne toda. Na minha e na dele. Somo-o por entre os meus dedos, pele transpirada e a queimar. Entregue(s), somos só nós, tudo o resto perdeu o tom e a voz.
Ele exaspera-me, e...ele acalma-me. É quase como se tivesse a resposta quando eu não a encontro. Ele...é a minha resposta.

domingo, 30 de abril de 2017


Há momentos que só nos pedem o abraço que já conhecemos. A palavra ou o silêncio que acalmam as águas, depois de toda a febre. O segundo para respirar. Conversas ou risos sobre nada. O [pause] que deixa os pensamentos para depois.
Horas em que só apetece ficar ali. Sem dramas ou delírios. A ver a vida passar...

quinta-feira, 27 de abril de 2017


"I think I fell in love with her, a little bit. Isn’t that dumb? But it was like I knew her. Like she was my oldest, dearest friend. The kind of person you can tell anything to, no matter how bad, and they’ll still love you, because they know you. I wanted to go with her. I wanted her to notice me. And then she stopped walking. Under the moon, she stopped. And looked at us. She looked at me. Maybe she was trying to tell me something; I don’t know. She probably didn’t even know I was there. But I’ll always love her. All my life."
Neil Gaiman, The Sandman, Vol. 8: Worlds’ End

quarta-feira, 26 de abril de 2017


Ele sabe a histórias frescas, escritas à mão, e não a palavras que já mil leram antes de mim, por aí, num livro qualquer.
O cheiro dele é o de um corpo inquieto, pelas horas de madrugada, traído pelos pensamentos e apanhado no próprio veneno de inflamar desejos que consomem tudo o que encontram pela frente.
Aquece a minha pele fria, faz-me rir com a capa que veste, mas que não é a dele, porque o que verdadeiramente o rege é o que o queima por dentro. 
A forma como a mão dele me desenha, cala tudo o que penso em voz baixa, e faz-me gritar o quanto ainda não tenho o suficiente dele.


Ele não teme cortar-se nos cacos e com um inspirar calmo, constrói o puzzle, outra vez, peça por peça... 

quinta-feira, 20 de abril de 2017


Corpo em desassossego...escrita frenética. 1+1=2. Simples.
Mas, por agora, nem é o corpo que me empurra os dedos sobre as teclas. Escrevo rapidamente frases e coisas que há muito guardo cá dentro, e mais rápido ainda as apago até sobrar apenas um enorme espaço em branco. Talvez o mesmo que me ficou, algures por aqui. A culpa...talvez seja minha, porque, mais uma vez, me deixo levar pelas minhas ânsias. O mal foi alguém ter-me dito, algures no tempo, que essa era a minha maior graça, ser assim, sem travão, tudo ou nada, um vendaval.
Eu sei que há algo por dizer, mas não tenho direito de o fazer. O bom senso ensinou-me que se as opiniões são minhas, só devo partilhá-las se ajudarem mais do que ferirem. E neste caso já consigo ver o sangue brotar, mal as palavras me saiam pela boca.
No sabor dos meus dias, prefiro pensar no balanço mais suave e doce da vida. Talvez um entusiasmo que nunca ninguém venha a conseguir explicar como surgiu e como se tornou tão forte ao ponto de estar guardado num lugar onde nada mais cabe, pelo menos para mim. Esqueço o lado cruel, esse, acho que nunca me pertenceu. Está para lá da beleza que vi (e ainda vejo) num afecto tão transparente como a água.

quarta-feira, 19 de abril de 2017


Eu sei que lês cada linha que eu escrevo. 
Quem sabe, agora, possa responder sobre como se faz isso de estar sempre nos impulsos de alguém ao ponto de ser quase uma obsessão.
A resposta, parece-me, talvez seja, nascer no teu corpo. Olhar, do jeito que olhas para as outras pessoas. A capacidade multidisciplinar do 8 e do 80, num equilíbrio tão ténue quanto a minha pouca vontade de te resistir.
Não escrevo para ti. Nunca escrevi para ninguém. Sempre fui egoísta o suficiente para me preocupar apenas com a minha satisfação, mas se a ruga na testa é sobre se penso em ti quando escrevo, sim, penso. Se as palavras tivessem cheiro, teriam o da tua pele.
Para ti serei sempre um enigma, em agradecimento por jamais entender a equação complicada que vai para além do teu peito.
Era demasiado fácil se isto fosse apenas uma questão de carne, não era?

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Tu sabes do que eu gosto.
Tu sabes o que eu quero. 


[Porque um repost, às vezes, vale mais do que mil palavras]

segunda-feira, 10 de abril de 2017


[Eu sei que não compreendes onde estou agora. A minha vida mudou, e eu...eu mudei com ela. Sei que não percebes as escolhas que pareço fazer, mas lembra-te que a mão que eu agarro hoje, foi a única que me pareceu estender-se na minha direcção, quando me afogava. Todos estamos apenas a fazer o possível para vivermos. Mesmo que só aos nossos olhos faça sentido. Sei que questionas, que talvez até sintas que quem vês, não é a mesma mulher com quem tanto partilhavas, mas, é que esta mulher, na ânsia de ter tanto, já andou em direcção contrária. Mentira. Esta mulher nunca quis tudo, quis apenas aquilo a que tem direito. Que é tanto, e tão pouco, afinal. São luas, muitas. São ódios que inquietam o coração, mas nunca têm força para vincar a alma. É uma paixão que empurra para a frente, que a despreocupa em fazer sentido. Agora, sim, mas daqui a pouco, que interessa?É uma infantil crença de que, algures, estará por aí um significado digno para a palavra feliz, sabendo sempre que, por mais que o seja, nunca será o suficiente.
Ser livre é estar condenado. A procurar mais e a exigir. Eu sei que não me percebes, por agora, mas pensa apenas que foi contigo que partilhei o meu lado mais doce. (Re)inventei-me, porque precisei de sobreviver, mas nada do que se vê, consegue embaciar as emoções a que nunca consegui dar o nome exacto.] 
De igual para igual.

sexta-feira, 7 de abril de 2017


Ele esteve na minha cabeça o resto da tarde. Prometi a mim mesma que iria saboreá-lo devagar, um momento após o outro, mas depois lembrei-me de quem sou e essa ideia perdeu todo o sentido.
A voz dele cortou-me a meio um cigarro, e do outro lado do telefone, ouvia-o rir, enquanto me embrenhava no fumo que é, para mim, desde sempre, essa coisa dos sentires. 
Não sei se a salada do almoço, é para repetir um destes dias, porque não me lembro ao que sabia. Lembro-me da milimétrica falha na sobrancelha esquerda dele, e do momento em que tirou os óculos escuros para ver, sem filtros, a minha falta de resposta à pergunta mais difícil que me fizeram, em meses. 
Quando o frenesim surge, já não há nada que o pare. A obsessão cresce e consome. Sempre assim foi, sempre assim será.
O espelho que vejo nele exerce uma estranha atracção sobre mim. É a primeira vez, porque normalmente, o que se passa é exactamente o contrário. 
A forma como roubou horas aos meus dias e às minhas noites, de forma tão desempoeirada, intriga-me. Gosto do despretensiosismo, das mãos em cima da mesa, de quem nada tem a esconder e está decidido a jogar, sem ainda saber bem as cartas que lhe vão calhar...